sábado, 4 de julho de 2009

Tombamento de fazenda colonial preserva 300 anos de história


Propriedade da zona rural de Juiz de Fora abrigou Tiradentes, Dom Pedro II e Getúlio Vargas*


Símbolo da aristocracia cafeeira, pousada para nomes conhecidos da história, refúgio de políticos, palco de casamentos e a casa de dezenas de gerações familiares. Desde o último dia 18 de junho, os episódios que marcaram os quase 300 anos de existência da Fazenda São Mateus passaram a ser oficialmente preservados pelo Patrimônio Histórico de Juiz de Fora. Com o tombamento do conjunto arquitetônico e paisagístico construído nas proximidades do Rio do Peixe, a cidade mantém viva uma testemunha de três séculos.

Situada às margens da rodovia MG-353, a 15 km do centro de Juiz de Fora, a propriedade rural tombada inclui a casa-sede e a igreja dedicada a São Mateus, além da fachada e paredes externas das casas de colonos. O decreto preserva também o acesso principal, cercado de palmeiras imperiais, o jardim e a área do entorno, cujo perímetro é formado por uma linha imaginária situada a 100 metros de cada lado do casarão e envolve a tulha, o engenho de serra e os currais.

A fazenda hoje é usada para a criação de gado leiteiro e de corte e pertence à família Villela desde 1974. Na década de 1980, foi totalmente restaurada e passou a receber cerimônias de casamento na capela de São Mateus. Em 2005, as celebrações foram proibidas pelo então arcebispo metropolitano Dom Eurico dos Santos Veloso e, agora, a propriedade é usada apenas pela família. A visitação é restrita e feita somente com autorização, já que nenhum dos proprietários reside no local, ocupado pelos trabalhadores rurais.

O conjunto guarda detalhes arquitetônicos únicos, móveis e relíquias raras. A casa-grande impressiona pelo tamanho: são 26 quartos, 21 banheiros, 12 salas e varanda com 45 metros de extensão. A igreja, erguida em 1933, possui 200 assentos. O relevo e a vegetação da propriedade são próprios para a prática de esportes radicais, como o trekking e o rafting. No total, a área da fazenda abrange cerca de 43 alqueires de terra.

Fundação

Fundada em 1709 pelo coronel Matias Barbosa da Silva, a São Mateus passou pelas mãos de outros dois portugueses no século XVIII, até ser adquirida pelo aristocrata José Inácio Nogueira da Gama, em 1803. Historiadores divergem quanto à construção da casa-sede. Suspeita-se que tenha ocorrido no início do século XIX, quando a propriedade viveu o auge da produção de café, chegando a produzir 25 mil sacas por ano.

Em 1839, com a morte de José Gama, sua esposa, a Baronesa de São Mateus, tomou a frente da administração e recebeu, três anos depois, a visita do imperador Dom Pedro II. Na ocasião, a viúva alforriou vários escravos para homenagear o imperador. Décadas antes, a fazenda teria abrigado Tiradentes por uma noite, quando ele viajava para a Corte, onde, dias depois, seria brutalmente esquartejado pelas autoridades portuguesas.



A família Tostes e Getúlio Vargas

Em 1890, Cândido Teixeira Tostes comprou a propriedade e promoveu uma grande reforma. Na década de 1920, ele recebeu a missão militar francesa, chefiada pelo general Gustave Gamelin, que veio ao Brasil para modernizar o Exército. Tostes morreu em 1927 e seu filho, João Tostes, passou a administrar o local. Em 1934, a São Mateus recebeu a primeira visita do presidente Getúlio Vargas, que veio passar o aniversário em Juiz de Fora. Em seu diário, Vargas registrou as impressões que teve:

“Conforme combinara previamente com o dr. Menelick de Carvalho, prefeito de Juiz de Fora, parti no dia 19 para São Mateus, fazenda do dr. João de Resende Tostes, naquele município. Acompanharam-me minha mulher, as duas filhas e um ajudante-de-ordens, capitão Ubirajara. Passei dois dias agradáveis, em completo repouso nessa velha fazenda patriarcal, mas com todos os requintes do conforto moderno, e onde fui tratado com a maior gentileza".

Vargas voltaria outras duas vezes a São Mateus, em 1935 e 1936. Nas visitas, fez despachos, recebeu ministros e o governador Benedito Valadares, assinou o decreto autorizando a repatriação dos restos mortais dos inconfidentes exilados na África, foi entrevistado por João Carriço, participou de cavalgadas e caçadas a porcos-do-mato e ainda visitou o Museu Mariano Procópio e a fábrica de estojos e espoletas de artilharia, a Imbel.

Tanto Getúlio como outras visitas ilustres recebidas na propriedade tiveram o privilégio de imortalizar o grandioso patrimônio histórico. O melhor de tudo é que, assim como eles, hoje ainda é possível apreciar e se impressionar com os ares de São Mateus, como registrou um de seus visitantes, na década de 1970:

“Ao dobrarmos a curva, avistamos o casarão com suas janelas iluminadas, justamente quando eram acendidos os lampiões. A visão tinha um toque de fantástico. O quadro era exatamente o que eu imaginava”.

*reportagem publicada na edição do JF Hoje de 22 de junho de 2009. Fotos de Luiz Carlos Duarte.

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