segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Imigração 100 anos: japoneses ajudaram a escrever a história de JF

por Joarle Magalhães

Um capítulo do livro da história de Juiz de Fora se passa nos campos de plantação de tomate do município, nas décadas de 1950 e 1960, e é escrito em japonês. Famílias de imigrantes do país do sol nascente cultivavam o produto na região da antiga fazenda Remonta, no Bairro Dias Tavares e nas redondezas de Benfica, onde hoje está o Distrito Industrial.

A origem dessa história está no ano de 1908, mais precisamente no dia 18 de junho, quando o primeiro navio de imigrantes vindos do Japão, o Kasato Maru, aportou em Santos, no litoral de São Paulo. Passado um século, o legado japonês no Brasil é imenso. As marcas do oriente aparecem na religiosidade, no comportamento dos jovens e na culinária.

A família do policial militar reformado Clóvis Kitamura é a prova de que a cultura nipônica permanece forte no Brasil e em Juiz de Fora. Morador de Benfica, Kitamura é brasileiro e casado com a juizforana Maristela Ferreira Kitamura, mas é filho de imigrantes. A mãe, Shizuê Minaki Kitamura, veio para o Brasil em 1928 e o pai, Nânio Kitamura, quatro anos mais tarde. Aqui se conheceram e, em 1950, se casaram. Para Minas Gerais, vieram em 1952 trabalhar com parentes que já moravam em Benfica. "Meu pai era comerciante de algodão no interior de São Paulo, mas uma supersafra do produto o levou à falência. Como tinha um irmão que cultivava plantações de tomate e melancia no Distrito Industrial, acabou vindo para cá", conta o ex-policial militar.

E não é só a família Kitamura que preserva o legado japonês em Juiz de Fora. Um levantamento feito pelo professor Marcelo Borges Vieira já contabiliza 80 famílias de origem asiática que moram da cidade. Em cinco dessas famílias, há um descendente direto. É o caso de Masumi Hara, 67 anos, que está em Juiz de Fora há quase 22 anos. Sua vinda para o Brasil aconteceu em 1960, quando foi morar em Indaiatuba (SP). Lá, conheceu a esposa, Ermelinda Gotardo, e se naturalizou brasileiro. Depois de casarem no Brasil, passaram quatro meses no Japão, onde novamente celebraram o matrimônio.

Masumi foi pioneiro na prática do sumô no país. Participou de 25 campeonatos amadores e foi considerado o melhor esportista brasileiro na modalidade. Seus alunos tiveram grande sucesso e um deles chegou a ser campeão do mundo em um campeonato de sumô realizado no Japão.

O maior legado da cultura trazida do Japão por Masumi, no entanto, é a técnica de massagem conhecida como shiatsu. Juiz de Fora é o lugar onde a técnica ganhou força nas mãos do japonês. "Logo depois que cheguei na cidade, conheci Dom Juvenal (Roriz - então arcebispo da arquidiocese e já falecido) e ele me pediu que fizesse uma massagem. Como gostou, disse que eu tinha que abrir uma clínica de massagens", conta Masumi, com o sotaque japonês carregado.

Hara seguiu os conselhos de Dom Juvenal e fez um curso teórico sobre shiatsu com um professor do Japão, que vinha ao Brasil eventualmente para ensinar a técnica milenar. Os conhecimentos passaram de pai para filho. Jean Masumi, o ex-participante do programa Big Brother Brasil, aprendeu a massagem com o pai, quando ainda morava em Juiz de Fora. Hoje, ele está em São Paulo, onde trabalha com o shiatsu.

Assim como Jean, outros descendentes de japoneses que moravam em Juiz de Fora também saíram da cidade. O professor Marcelo Borges explica que a abertura das fronteiras do Japão, nos anos 1990, para as famílias de imigrantes, fez com que muitos voltassem ao oriente. "A comunidade japonesa da cidade é muito dispersa. O levantamento vai ajudar na estruturação da ONG Espaço Oriente, que tem o objetivo de difundir a cultura da Ásia e do Oriente Médio em Juiz de Fora", afirma Borges.

Para o presidente do Sindicato Rural, Domingos Frederico, hoje em dia há realmente menos descendentes nipônicos na cidade. "Há 20 anos, ainda existiam famílias japonesas que trabalhavam em plantações de tomate. Hoje, não vemos mais", conta.

*texto publicado na edição impressa do JF Hoje em 16 de junho de 2008.

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