Desperdício chega a quase 1 bilhão ao final de um mês. Em Juiz de Fora, perda de água na distribuição é de 29%*

Vista parcial da Represa João Penido, localizada na Zona Norte, que responde por 50% do abastecimento
Em tempos de valorização das políticas de gestão que conservem os recursos naturais, reduzam a degradação ambiental e preservem as fontes de água potável, a Companhia de Saneamento Municipal (Cesama), responsável pelo abastecimento de Juiz de Fora, registra um número preocupante: perde, por dia, mais de 3,2 milhões de litros de água em sua rede de captação e distribuição. Somadas, ao final de um mês essas perdas atingem um nível de desperdício equivalente a quase 1 bilhão de litros, quantidade que daria para abastecer toda a população da cidade durante nove dias. O volume mensal perdido representa, em média, 29% de toda a água captada nas fontes do município.
De forma geral, as perdas de água se dividem em físicas e não físicas. O primeiro tipo refere-se aos vazamentos no sistema de produção e distribuição de água, enquanto o segundo abrange os erros na medição dos hidrômetros domésticos e o consumo clandestino (gatos). Segundo especialistas, a perda física sempre vai existir, já que é difícil identificar os locais de vazamento, pois a rede é subterrânea. “Não existe desperdício zero, nenhum sistema consegue zerar as perdas. Trabalha-se com uma porcentagem aceitável de vazamentos no sistema de distribuição”, explica o professor do curso de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFJF, José Homero Pinheiro Soares.
Por isso, o combate ao desperdício concentra-se nas perdas não físicas. Para se ter ideia, em Juiz de Fora, nos últimos 12 meses, foram 300 ligações clandestinas descobertas pela equipe de fiscalização. Além disso, no ano passado, 22.905 hidrômetros com defeito foram substituídos, porque pararam de faturar o consumo de água. Segundo o engenheiro Mário Porto Filho, responsável pela assessoria de planejamento e controladoria, os hidrômetros têm vida útil de cinco anos e, por causa disso, um serviço constante de troca dos equipamentos é mantido. Em toda a cidade, são mais de 115 mil aparelhos.
Apesar de bastante significativa, a perda anual de 29% na distribuição é considerada razoável pelo professor dos cursos de Engenharia Civil e Engenharia Sanitária e Ambiental da UFJF, Fabiano Tosetti Leal. “O parâmetro ideal é que a perda de água fique na casa dos 20% ou menos, mas pode-se considerar que Juiz de Fora está numa situação confortável. No Brasil, a média está em torno de 40%”, afirma.
O Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos, elaborado pela Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental e divulgado em março deste ano, confirma a informação do professor. Segundo o levantamento, o valor médio das perdas no Brasil, em 2008, foi de 37,4%, o menor registrado nos últimos 14 anos. O relatório revela ainda que, entre as concessionárias municipais, a Cesama é a quinta no país que menos perde água. Fica atrás de cidades como Campinas (SP) e Blumenau (SC), com índices de perdas entre 15% e 20%; mas tem melhor desempenho que as companhias de saneamento de Uberlândia (MG), Niterói (RJ), Ribeirão Preto (SP) e Manaus (AM), onde o desperdício pode chegar a quase 70%.
Tecnologia ajuda a combater canais de perda
Essa “situação confortável” de Juiz de Fora deve-se à realização de programas de combate às principais causas de perdas. Além da fiscalização de “gatos” e substituição de hidrômetros, a Cesama usa o serviço de geofonia para identificar vazamentos no subsolo. Por meio de um aparelho semelhante a um estetoscópio gigante, técnicos podem ouvir o barulho da rede, colocando o equipamento em contato com a terra. Há ainda um sistema automatizado de controle dos níveis dos reservatórios, que regula a quantidade de água disponível, de forma a agilizar ações que evitem o desperdício. Dos 75 reservatórios existentes no município, 30 já foram automatizados e possuem sensores de nível, monitorados à distância por uma central da Cesama, localizada no Bairro São Mateus.
Na cidade, a água é obtida de quatro fontes distintas, que fornecem, mensalmente, mais de 3,3 bilhões de litros. São cerca de 1.300 litros captados por segundo. Desse volume, 2,3 bilhões chegam para o consumo e respondem por um faturamento anual de aproximadamente R$ 100 milhões (2009). Juiz de Fora possui mananciais em abundância e, atualmente, utiliza a Represa João Penido (50%), o Ribeirão do Espírito Santo (40%) e a Represa de São Pedro (8%) como principais fontes de captação. Os 2% restantes correspondem aos poços artesianos.
Toda essa rede de abastecimento sofre perdas, que impactam diretamente no faturamento da companhia. De acordo com o engenheiro Mário Porto, as perdas são difíceis de serem mensuradas financeiramente, porque em cada etapa do sistema o litro d’água tem valor diferenciado. A água colhida na fonte vale menos que aquela que já passou pelas estações de tratamento. O impacto no faturamento acaba caindo no bolso do consumidor, que indiretamente assume a perda.
Mesmo apresentando nível aceitável, o professor José Homero acredita que Juiz de Fora deva buscar como meta os parâmetros entre 15% e 20%, registrados em países da Europa. “A redução está relacionada ao investimento das empresas na manutenção da rede. As concessionárias precisam alocar mais recursos nesse setor. Só assim será possível diminuir as perdas”, defende.
*reportagem publicada na edição do JF Hoje de 19 de abril de 2010.
Foto: divulgação/Cesama
Um comentário:
Importantíssima a conscientização da população e dos órgãos públicos para a busca do desperdício zero, já que a água potável é fundamental para a sobrevivência da humanidade e se apresenta cada vez mais rara. Parabéns pela reportagem, Joarle!
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