Iniciada em abril de 2009, a pesquisa traça um diagnóstico do lançamento de esgoto e lixo, mostrando o impacto ambiental provocado na bacia hidrográfica e na qualidade de vida de quem mora às margens dos cursos d'águas. Além de analisar o leito do Paraibuna (entre os bairros Barbosa Lage e Graminha), o mapeamento identifica o grau de contaminação da água que corre pelos córregos Humaitá, Carlos Chagas, São Pedro, Independência, Tapera, Matirumbide , Ipiranga e Yung. Nestes cinco últimos, o índice de oxigênio dissolvido em água fica próximo de zero, quase oito vezes abaixo do valor máximo encontrado na natureza, que é de 8 mg/L.
"A pesquisa é feita com base na medição da demanda bioquímica de oxigênio (ADBO), que indica a quantidade de matéria orgânica presente na água. Se há muita concentração, cria-se um ambiente propício para a proliferação de bactérias e outros organismos que tiram o oxigênio da água, tornando-a imprópria para a vida aeróbica. Quanto maior é a medida da ABDO, mais sujo está o rio", explica.
Colhidas ao longo de um ano, com o apoio de barcos e soldados do Corpo de Bombeiros, as amostras indicam que os cursos d'água locais estão tão contaminados quanto o Rio Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, o Ribeirão da Onça, que corta a capital e deságua no Rio das Velhas, e o Rio Muzambinho, localizado próximo à divisa entre Minas e São Paulo, no Sul do Estado. Esses três mananciais apresentam, respectivamente, 0.2, 0.9 e 0.4 miligramas de oxigênio dissolvido em um litro de água, os piores níveis, segundo o último Relatório de Monitoramento da Qualidade das Águas Superficiais de Minas Gerais (referente aos meses de julho, agosto e setembro de 2009). O documento, elaborado pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), mostra que os três rios são classificados como classe 3, ou seja, possuem o índice de qualidade da água muito ruim.
No caso do Paraibuna, além do regime de chuvas, o controle da vazão feito pela represa de Chapéu D'uvas eleva a qualidade da água para um nível razoável de poluição. De acordo com a metodologia da pesquisa da UFJF, que colheu amostras em dez diferentes períodos do ano, é necessário levar em consideração a época de chuva, quando a quantidade de água nos leitos aumenta, elevando as taxas de oxigênio dissolvido. Essa variação pode chegar à vazão de 43 metros cúbicos por segundo, em janeiro, e cair para 27 metros cúbicos por segundo, nos meses de julho e agosto. Segundo José Homero, se não existisse o controle feito por Chapéu D'uvas, a vazão tenderia a cair bruscamente, elevando ainda mais o nível de poluição registrado na época da seca.
O mapeamento, que contou com R$ 42 mil em recursos viabilizados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), ainda precisa contabilizar os últimos dados, recolhidos em março, para chegar ao diagnóstico final. "Espero poder divulgar o resultado do trabalho daqui a três meses. Acredito que essa pesquisa poderá indicar a quantidade mínima de esgoto a ser tratada, para que o Paraibuna mantenha condições aceitáveis de qualidade da água", aponta José Homero.
Manancial recebe 60 milhões de litros de esgoto por dia
O lançamento de esgoto sanitário e de efluentes industriais é a principal causa da degradação pluvial em Juiz de Fora. De acordo com a Companhia de Saneamento Municipal (Cesama), em um único dia, são jogados mais de 60 milhões de litros no Paraibuna, à vazão de 700 litros de esgoto por segundo. A Tribuna foi a uma dessas áreas impactadas pela poluição e encontrou a "rua do fedor", como ficou conhecida a Rua Liberalino Gaspar, no bairro Bonfim, região Leste. A via segue o curso do córrego Matirumbide e localiza-se entre as ruas Américo Lobo e Barão do Retiro. "Todo dia é mau cheiro aqui, a não ser quando chove muito e lava o córrego. À noite, tenho que fechar a casa toda para não entrar o fedor. Dá a impressão que tem um esgoto dentro de casa", relata a moradora Jacinta Maurícia Perreira.
O motorista aposentado José Rodrigues da Silva, que vive no Bonfim há 67 anos, conta que a poluição começou a impactar a qualidade de vida da região no início da década de 1970, quando os bairros Progresso e Marumbi iniciaram seu processo de desenvolvimento. "Já bebi com a mão a água desse córrego, mas hoje até pra comer o cheiro atrapalha", conta. Também residente da "rua do fedor", a aposentada Maria José Santana reclama que o esgoto e o lixo lançados no Matirumbide atraem ratos, baratas, pernilongos e doenças para sua casa: "Por mais que deixe minha casa limpa, não adianta, esse problema é inconveniente 24 horas por dia, até pra receber uma visita fica difícil".
No local, segundo os moradores, vivem cerca de 30 crianças, que acabam ficando expostas a diversas contaminações. "Brincam muito aqui na beirada do córrego, jogam futebol e, às vezes, até entram na água, porque a bola cai e eles vão buscar. Sempre tem alguém doente", afirma Maria José.
Prefeitura quer incluir Eixo Paraibuna no PAC
A solução para o problema da poluição dos rios passa obrigatoriamente pelo tratamento do esgoto. Em Juiz de Fora, desde 2004, um audacioso projeto, chamado Eixo Paraibuna, promete revitalizar e despoluir o rio. O programa envolve recursos na casa dos R$ 70 milhões, mas, devido ao alto custo e a problemas jurídicos, ainda não teve seu financiamento aprovado pela Caixa Econômica Federal. Segundo a Secretaria Municipal de Obras, a verba pode, no entanto, ser liberada em breve, já que atualmente estão sendo realizados os acertos descritivos do projeto, fase que antecede a aprovação da obra.
Além disso, a Prefeitura quer que o Eixo Paraibuna seja incluído no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. Dessa forma, o projeto poderia ser subsidiado com mais R$ 40 milhões, totalizando o valor de R$ 110 milhões. A proposta está em discussão, sem previsão de ser aprovada.
Na cidade, dos 700 litros de esgoto lançados por segundo, apenas 60 litros (8,5%) recebem tratamento, feito na estação do bairro Barbosa Lage. Apesar do pequeno volume, a Cesama afirma que tem investido na ampliação do serviço. Segundo números da companhia, entre 2008 e 2010, a quantidade de esgoto tratado passou de 5 litros por segundo para os atuais 60. A empresa diz que tem desenvolvido trabalho contínuo de separação de redes (esgoto e pluvial) na Zona Norte para aumentar a capacidade de tratamento. Além disso, já está em execução a implantação de coletores de resíduos nas margens do córrego São Pedro, obra que está sendo realizada simultaneamente à construção da BR-440.
*reportagem publicada na edição da Tribuna de Minas de 14 de maio de 2010.

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